Já faz algum tempo que li
Desumano - livro da
Olivia Maia - e só hoje resolvi comentá-lo. Não sei se sou bom em comentar qualquer coisa porque, isto é bem verdade, com suas raras exceções, ningúem comenta o que eu escrevo, e não sou narcisista a ponto de ficar me auto-elogiando com oh, nossa, que comentário divino. Não, só quero comentar o que li como todo mundo hoje faz por aí, certo?
Pois saiba que Desumano é um livro policial e ele se comporta exatamente como um, assim, devo dizer, não transita entre dois mundinhos. A diferença é que ( tem na capa do livro) não há troca de tiros ou esquemas de corrupção entre investigadores e criminosos etc, etc.
O enredo tem início com um rapaz chamado Márcio que recupera a consciência e se vê na sala de sua casa, ajoelhado no tapete todo melado de sangue, e sua mãe bem ali, deitada, com o pescoço cortado e o maxilar estraçalhado. Isso foi suficiente para prender minha atenção que, somado à narrativa rápida da Olivia, permitiu que eu terminasse de ler tudo em poucas horas.
Meu grande problema foi com esse tal de Márcio. Nossa, ele é chato demais, do tipo que, se você inicia uma conversa, o cara fica calado ou então te olha com desdém ou te dá uma resposta que ele julga ser a melhor. Na verdade, Márcio é um filhinho-de-papai que nunca saiu debaixo das asinhas da mãe; e é metido. "
E me lembrei do Brás Cubas durante seu delírio". Esse foi o pensamento dele no ponto de ônibus depois de enfiar as unhas no braço para se certificar de que não estava dormindo. Tudo bem, as unhas são dele, o braço é dele, mas lembrar do Brás Cubas e do seu delírio é demais. Sem contar a parte em que, cansado de bloquear o caminho das formigas na parede e matá-las com a ponta dos dedos, diz: ''
A lei do mais forte...''. Márcio merece um coc no crânio por não ter dito logo: ''
Ao vencedor, as batatas''.
O protagonista também tem a mania psicopata de olhar as pessoas e imaginá-las morrendo, assim, só por diversão. A insistência nesse tipo de raciocínio deixa o final do livro um pouco previsível. Mas ok, é o jeitão dele de ser. Só acho que Olivia exagerou nas sensações ''marcianas'' passageiras acompanhadas sempre de um '' mas sabia que logo aquilo passaria'', a ponto de eu sempre saber que, quando Márcio se sentia diferente, aquilo não duraria mais do que alguns segundos e ele, de sobra, ainda diria, '' mas sabia que logo aquilo passaria''.
E por causa dele, o livro deu uma acelerada desnecessária, como se a própria Olivia já estivesse achando o carinha repugnante, porque, tornando-se previsível, Márcio não abria possibilidade de mais investigações. E também,
Desumano, não sei, talvez a Olivia possa responder depois, foi imaginado primeiro como um conto para só depois ser pensado como um livro e, lógico, essa transição pode tomar rumos perigosos.
O importante é que ela fez tudo direitinho e, para uma estréia, o trabalho ficou ótimo. Afinal, não é qualquer um hoje que publica um livro numa editora como a Brasiliense e com tão pouca idade, 22 anos.
Enfim, acabei gostando do livro. Leia qualquer dia e , ah, não se esqueça de visitar o
blog dela. É legal e tal. Na verdade, ela mesma é deveras legal. ''Deveras'', háhá.